
Fertilizantes no centro da tensão: como conflitos no Oriente Médio podem impactar o agronegócio brasileiro
Durante décadas, o agronegócio brasileiro se acostumou a lidar com variáveis conhecidas: clima, produtividade, custos de produção e preços internacionais.
Mas, em um mundo cada vez mais interconectado, fatores geopolíticos passaram a influenciar diretamente o campo. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto o atual conflito envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel.
Embora o epicentro da crise esteja a milhares de quilômetros do Brasil, os efeitos já começam a se espalhar pelos mercados mundiais, especialmente em dois pontos críticos para o agronegócio: logística internacional e fertilizantes.
E quando esses dois elementos entram em tensão ao mesmo tempo, o impacto pode se tornar significativo.
O gargalo logístico que o mundo observa
Grande parte da preocupação atual gira em torno de um ponto geográfico extremamente sensível: o Estreito de Ormuz.
Esse corredor marítimo conecta o Golfo Pérsico ao restante do mundo e funciona como uma das rotas logísticas mais estratégicas do planeta. Por ali passam diariamente volumes gigantescos de petróleo, insumos industriais e produtos agrícolas.
Qualquer instabilidade na região gera um efeito imediato na logística internacional.
Entre os principais impactos possíveis estão:
- Aumento do custo do transporte marítimo;
- Mudanças de rotas e transit times;
- Aumento de prêmios de seguro;
- Maior volatilidade nos fretes internacionais.
Mas, para o agronegócio brasileiro, o efeito mais sensível pode vir de outro lugar.
O elo crítico: fertilizantes
O Brasil é uma potência agrícola. Mas essa força produtiva depende fortemente de insumos importados, especialmente fertilizantes.
Nesse contexto, o Oriente Médio ocupa uma posição estratégica no abastecimento.
Atualmente, o Irã responde por cerca de 10% das exportações globais de ureia e o Oriente Médio concentra aproximadamente 25% da oferta mundial desse fertilizante. Além disso, parte relevante dos fosfatados e outros insumos utilizados na agricultura também depende de rotas logísticas que passam pela região.
Isso significa que qualquer instabilidade no fluxo logístico ou na produção desses países pode pressionar diretamente os custos da produção agrícola brasileira.
A dependência brasileira
Os números ajudam a dimensionar essa dependência. Em 2025, o Brasil importou da região do Oriente Médio aproximadamente 35% da ureia, 17% dos fosfatados e 10% do cloreto de potássio (KCl). Esses insumos são fundamentais para culturas como soja, milho e algodão.
Quando ocorrem tensões geopolíticas em regiões que concentram produção ou logística desses produtos, o mercado reage rapidamente.
O resultado costuma aparecer em forma de aumento de preços, instabilidade no fornecimento, necessidade de redirecionamento logístico e maior pressão sobre margens no campo.
Por que a logística se torna ainda mais estratégica
Em cenários de instabilidade internacional, a logística assume, com ainda mais intensidade, o seu papel de variável estratégica.
Empresas que dependem de fertilizantes importados precisam acompanhar de perto fatores como disponibilidade de navios e rotas, capacidade portuária, prêmios de seguro marítimo, riscos geopolíticos e mudanças regulatórias e comerciais.
Uma cadeia logística bem estruturada pode significar a diferença entre manter a previsibilidade da operação ou enfrentar rupturas de abastecimento.
O impacto indireto na produção agrícola
O aumento dos custos ou a dificuldade de acesso a fertilizantes pode gerar um efeito em cascata. Entre os possíveis impactos estão:
- Aumento do custo de produção no campo;
- Pressão sobre margens do produtor;
- Maior volatilidade nos preços agrícolas;
- Ajustes nas decisões de plantio;
- Reconfiguração de fluxos comerciais.
No caso específico do milho brasileiro, outro fator adiciona complexidade ao cenário.
O Irã consolidou-se como um dos principais destinos das exportações brasileiras do cereal nos últimos anos. Caso ocorram restrições comerciais ou dificuldades logísticas na região, isso pode impactar diretamente o equilíbrio entre oferta e demanda do produto.
Um novo nível de atenção para o agro
O agronegócio brasileiro sempre foi altamente eficiente na gestão de riscos produtivos.
Agora, cada vez mais, será necessário incorporar também riscos logísticos e geopolíticos ao planejamento estratégico.
Petróleo, fertilizantes, câmbio, rotas marítimas e segurança internacional passam a fazer parte da equação que define custos, margens e competitividade.
Nesse cenário, a antecipação e a inteligência logística tornam-se diferenciais fundamentais. Porque, muitas vezes, o impacto de uma crise global começa muito antes de aparecer no campo, ele começa na cadeia logística.